Nós vamos invadir sua escola

jan 27, 2014 by     No Comments    Posted under: Notícias

A poucas semanas do término do ano letivo de 2012, um grupo de dezenas de estudantes tomou um trecho da avenida Liberdade, no centro de São Paulo. Com as caras pintadas de preto e verde ou protegidas por máscaras, eles traziam faixas de protesto contra a possível compra da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado), um centro universitário de 110 anos, por um grupo de jovens empresários. Os alunos temiam demissão de professores, mudanças no valor das mensalidades e piora na qualidade do ensino. Na sequência dos protestos de rua, as manifestações chegaram às redes sociais e à imprensa.

Do outro lado da cidade, na avenida Luís Carlos Berrini, Zona Sul de São Paulo, o empresário Daniel Castanho acompanhava os protestos com um semblante calmo e um discreto sorriso. “A negociação vai bem. Em breve teremos novidades”, diz. Castanho é a pessoa à frente do Anima Educação (fala-se ânima). O grupo, fundado há quase dez anos, tornou-se uma das estrelas no setor, com faturamento de R$ 400 milhões em 2012 e lucro operacional (Ebitda) de R$ 70 milhões. Nos seus campi circulam aproximadamente 50 mil pessoas, das quais 3,5 mil são funcionários, incluindo professores. “Desde a sua criação, o Anima adotou como estratégia comprar universidades prestigiadas regionalmente, porém com sérias dificuldades financeiras, e implantar sua visão gerencial com foco nos resultados”, afirma Ryon Braga, presidente da Hoper, consultoria especializada no setor. Foi assim com a Una e a UniBH, de Belo Horizonte (MG), e a Unimonte, de Santos (SP).

A história do grupo começou em 2003, quando Castanho, Maurício Escobar e Marcelo Bueno, amigos de faculdade (todos de 37 anos), decidiram se aventurar na educação. Até então, o trio havia feito várias apostas: foram sócios de restaurantes, investiram em empresas pontocom e prestaram serviços de consultoria para a reestruturação de pequenos e médios negócios. Após alguns anos ajudando outros empresários, o grupo – acrescido de Gabriel Ribeiro, que entrou para a sociedade – decidiu usar sua experiência para criar a própria companhia. Filho de um sócio de unidades do Anglo e Objetivo em Sorocaba, interior de São Paulo, Castanho acompanhava a área de educação desde cedo e defendeu que valia a pena se arriscar no setor.

Dez anos mais tarde, o Anima está conquistando espaço com um modelo de negócios promissor. Já no início deste ano, deve anunciar uma série de aquisições. Nenhuma delas é uma compra de cifras monumentais. São, essencialmente, ramificações em mercados onde a companhia quer sedimentar sua estratégia de longo prazo. Na área de cursos universitários, está a alguns passos de concretizar a compra da Fecap, em São Paulo, e de duas faculdades no interior de Minas Gerais. Na área de educação executiva, o Anima irá desembolsar R$ 50 milhões por 50% da HSM Educação, tornando-se sócio do Grupo RBS. De olho nas tecnologias com potencial para serem usadas em salas de aula, está para bater o martelo na compra da empresa de apresentações Soap. Por fim, acerta a criação da Le Cordon Bleu Anima, uma sociedade com uma das maiores escolas de gastronomia do mundo.

Balanço 1:
No dinâmico setor da educação, começa a se destacar o grupo Anima, formado por quatro amigos. Seus R$ 400 milhões de faturamento devem aumentar com uma batelada de compras neste início de ano

anima-02

As aquisições têm sido feitas com parte dos R$ 100 milhões aportados pelo fundo de private equity BR Investimentos. O que elas têm de diferente é a diversificação: as parcerias com grifes como Le Cordon Bleu e HSM inauguram frentes no ensino especializado. “As universidades como nós conhecemos hoje vão deixar de existir”, afirma Castanho. “O que virá eu não sei, mas estamos fazendo nossas apostas.” Sua crença é que, além dos cursos universitários usuais, vão crescer as opções lato sensu, de conteúdo mais heterodoxo. Nesta direção, a empresa tem discutido parcerias com instituições de ensino consagradas, como a faculdade americana de medicina Johns Hopkins, e professores prestigiados como Philip Kotler.

Em muitos aspectos, a trajetória do Anima até aqui se assemelha à de outros negócios de educação. Grupos como Anhanguera, Estácio de Sá e Kroton são embalados há anos por um crescimento vertiginoso. Geralmente, são geridos por financistas interessados em explorar as oportunidades abertas com a enorme demanda por educação entre as famílias das classes C e D. Assim como seus concorrentes, o Anima foca nos cursos tecnológicos e de graduação voltados às necessidades imediatas da nova classe média. “Neste momento, estão em alta as faculdades de administração, contabilidade e engenharia e os cursos técnicos nas áreas de mineração e petróleo”, afirma Castanho.

No grupo das faculdades privadas focadas em oferecer graduação para a massa, ficam em segundo plano as humanidades clássicas com menor apelo comercial, como sociologia e filosofia, e os cursos de valor mais alto (medicina, por exemplo). “O foco agora é na aprendizagem significativa: o aluno tem de saber por que está aprendendo aquilo.” Para completar a lista de semelhanças, o Anima atraiu um fundo de private equity para sustentar seu crescimento acelerado – em nove anos, o número de alunos saltou de 2 mil para 42 mil. “Com o investimento feito pela BR Investimentos e o que geramos de caixa, o Anima tem pelo menos mais R$ 50 milhões para investir.”

Balanço 2:
Assim como os grupos Anhanguera, Estácio de Sá e Kroton, o Anima cresce muito apostando em cursos de áreas técnicas voltadas para a classe C, com apoio de um fundo de private equity

Paradoxalmente, no terreno das características únicas do Anima, seu fundo de private equity é um dos pontos mais expressivos: por trás do BR Investimentos está Paulo Guedes, economista e empresário com larga experiência em educação. “Queríamos alguém que tivesse visão educacional e de longo prazo”, diz o sócio Marcelo Bueno. Na década de 80, Guedes foi um dos idealizadores do Ibmec, escola de negócios cujo modelo foi replicado em várias cidades e serviu de inspiração para o paulistano Insper. Ao investir na escola com o ex-sócio Claudio Haddad, seu desejo era fazer do Ibmec a base de um modelo educacional de larga escala. Haddad preferiu criar o Insper, uma escola de elite, e desde então os dois são desafetos. Com o Anima, Guedes retoma um sonho antigo. “O Ibmec mostrou que era possível ganhar dinheiro com ensino de qualidade. O desafio com o Anima é universalizar esse ensino de qualidade”, diz.

Outra particularidade é o fato de a empresa atuar de forma descentralizada. As faculdades compradas adotam os princípios pedagógicos e de administração do Anima, mas mantêm sua marca e gestão autônoma. Para Ryon Braga, a valorização dos ativos locais é uma das principais razões por trás da entrada, inédita no setor, do grupo Anima no ranking Melhores Empresas para Trabalhar, do Great Place to Work Institute (GPTW). “Isso foi uma surpresa, pois os professores tendem a ser muito críticos”, diz Braga. Como mostra desse clima “paz e amor”, no último ano o porteiro de uma escola subiu ao palco para receber o prêmio.

A terceira peculiaridade do Anima é o próprio Castanho. Em um mundo onde empresários e investidores são olhados com desconfiança, ele se apresenta como um capitalista passional, imbuído de uma causa. Quando fala da sua “vocação”, vai e volta várias vezes no encosto da cadeira, mexe no cabelo ondulado que começa a rarear, come algumas sílabas e dispara frases do tipo: “Daí a gente foi lá, apresentou o nosso modelo pra eles e PÁ-PÁ-PUM!”. Com discurso apaixonado e franqueza de moço do interior, Castanho atraiu nomes de alto calibre para o grupo. O primeiro foi o padre Geraldo Magela (1931-2011), ex-reitor da PUC-MG responsável por um dos maiores êxitos da faculdade católica no Brasil. Durante sete anos, ele foi o reitor da Una.

Em seguida, veio Ozires Silva, um herói do empresariado brasileiro, fundador da fabricante de aviões Embraer. Aos 82 anos, atuante no conselho de mais de 40 empresas, Ozires diz ter aceitado o convite por ter visto “algo de diferente” ali. “Senti que esses jovens estavam genuinamente engajados em transformar o país pela educação”, diz o presidente do conselho de administração do Anima e reitor da Unimonte.

Balanço 3:
O Anima tem três peculiaridades: associou-se ao financista Paulo Guedes, um especialista em educação; em vez de instalar seu sistema, preserva a gestão das escolas compradas; e sua paixão por educação atrai conselheiros de renome, como Ozires Silva e o padre Geraldo Magela

A contribuição de gente tão prestigiada é uma mão na roda, mas não diminui um obstáculo nas aquisições do Anima. Desde 2003, Castanho lida com a resistência de fundações, professores e alunos contrariados com a chegada do grupo. Como no caso da Fecap, quase sempre o nó legal está no fato de que, para concluir a compra de uma escola pertencente a uma fundação sem fins lucrativos, o grupo empresarial precisa de uma autorização judicial. Trata-se de um processo desgastante e com custo de imagem para a empresa, mas que já está incorporado ao procedimento de aquisições do Anima. “Os antigos donos estão em geral na faixa dos 70 anos e têm filhos sem experiência empresarial”, diz Castanho. Isso explica por que, apesar de a Fecap dizer que não há negociação em curso, o Anima já trata a compra da escola como certa.

Os casos mais recentes de aquisição têm mostrado que poucas armas podem ser tão úteis quanto a paciência. Logo nos seus primeiros anos, o Anima lidou com processos que demoraram anos. Na Unimonte, a poucos dias de assinar o contrato de compra, os sócios receberam uma ligação da dona da faculdade. “Ela e os dois filhos queriam fazer uma última tentativa de levantar a faculdade antes de vendê-la”, diz Castanho. No dia seguinte, quando o negócio parecia ter ido para o ralo, Castanho pediu uma última reunião. “Fui lá entregar o planejamento produzido pela minha equipe para a escola. Eu me recusava a jogar todo o nosso trabalho fora.” Um ano depois, recebeu outra ligação. “A família tinha decidido vender e, por causa da minha postura, não queria negociar com mais ninguém. Fechamos o contrato em três dias.”

A paciência dos sócios também se mostrou um ativo importante em um processo de arbitragem. Desde a aquisição da Unimonte, Castanho brigava na Justiça com três sócios minoritários que diziam ter sido prejudicados por meio de manobras contábeis que os excluíram da sociedade. Na penúltima semana do ano passado, Castanho e o grupo dos minoritários (Renato Valle, Lauro Bracarense e Manoel Barbosa Neto) chegaram a um acordo sobre o valor a ser pago para que eles abram mão de sua participação no Anima. “Tirei uma bola de aço do meu pé”, afirma Castanho.

Ao tirar essa questão delicada da frente, a empresa pode se preparar para outros voos. Segundo Castanho, na medida em que o lucro operacional da empresa se aproxima de R$ 100 milhões, o Anima se torna “IPOable” (apto a abrir o capital na bolsa). “Para mim, o IPO não é a linha de chegada, é só uma forma de captar dinheiro mais barato.” Antes que eu pergunte, ele garante que não passa por sua cabeça a ideia de vender a empresa para outro grupo. “Se você perguntar para um empreendedor qual o seu sonho, ele vai dizer que é vender a empresa na véspera da sua morte”, diz. “Assim ele trabalha até o fim e não ferra seus herdeiros.”

Apesar do nó Windsor na gravata e do motorista particular (“um dos meus raros luxos”), Castanho diz ser um sujeito de hábitos simples que faz questão de preservar os pequenos prazeres de Sorocaba, onde mora com a mulher e três filhos. Recentemente, levou sua avó para viver na sua casa. “É um barato. Ela está ensinando os bisnetos a fazer tricô.” Castanho conta que sua filha mais velha, hoje com 7 anos, nasceu prematura e passou quase três meses na UTI. Mais tarde, correu sério risco de ficar cega. “Depois disso, nada me assusta”, diz. “O mundo pode estar caindo que eu sempre volto para casa certo de que tudo vai acabar bem.”

Balanço final:
Com o final de uma briga com sócios minoritários e o aumento do lucro operacional, o Anima entra na rota do IPO – e de uma aceleração do crescimento

anima-05Fonte: http://epocanegocios.globo.com

Deixe uma resposta

Newsletter

E-mail:

Inscrever
Desinscrever

Publicidade

Threesome
Creampie
Blowjob
Threesome
Orgy
Threesome
Threesome
Anal
Blowjob
Orgy