The School of Life desembarca em SP e mostra força dos cursos livres

mai 13, 2013 by     No Comments    Posted under: Cursos

Quem tem interesse em aprender sobre a importância da adoção de bermudas no ambiente de trabalho, ou sobre o que os bobos da corte têm a nos ensinar pode comemorar: há um curso para cada um desses temas.

 

Cresce no Brasil o número de instituições de ensino independentes (sem ligação com universidades ou fundações) que oferecem aulas livres, sobre temas muitas vezes inusitados, e que não exigem uma formação prévia dos alunos.

Na sexta-feira, começou em São Paulo o primeiro curso da The School of Life no país. Os 25 alunos que conseguiram se inscrever, e pagar R$ 2.900 vão passar cinco dias discutindo assuntos que incluem “como desenvolver seu potencial” e “como balancear trabalho e a sua vida pessoal”.

Entre os professores estão o escritor José Roberto Torero e David Baker, ex-editor da revista “Wired”.

The School of Life

Outras iniciativas lançadas neste ano incluem o Cultura em Curso (da Livraria Cultura) e a Escola de Qualidade de Vida para Mulheres. Em nove anos, são pelo oito escolas que ensinam temas que vão de filosofia grega a visagismo (estudo das feições).

A The School of Life, fundada em 2008 em Londres pelo filósofo Alain de Botton, pretende dar aulas sobre ideias que “ajudem o aluno a se questionar de uma maneira que ele se conheça com mais nuances”, diz a diretora Morgwan Rimel.

Segundo Clemmy Balfour, a gerente de projetos da instituição, os alunos não têm um perfil único: geralmente são jovens profissionais que querem ter uma conversa interessante ou aprender algo, mas não estão necessariamente atrás de uma ideia para a carreira. Mas muita gente muda o rumo profissional depois das aulas.

“Um dos cursos se chama ‘Como Encontrar um Trabalho que Você Ama’, e muita gente pede demissão do emprego depois das sessões”, conta Balfour.
O programa no Brasil, no entanto, não é idêntico ao inglês. Em São Paulo, os organizadores consideraram importante falar sobre “como ficar calmo”, por exemplo, e também técnicas de meditação usadas por profissionais para reduzir o estresse.

O inglês Richard Wassell, 50, veio para o Brasil pela primeira vez para cursar o intensivo, que só será oferecido novamente em Londres no segundo semestre.

“Para quem trabalha com negócios, é importante criar um tempo para descobrir novas ideias”, diz Wassel, que é consultor de restaurantes.

“Ir além na carreira significa se libertar de sistemas de pensamentos viciados que as organizações acabam privilegiando”, diz Mario Vitor Santos, 58, diretor da Casa do Saber. A instituição, que começou oferecendo cursos de filosofia, hoje dá aulas ligadas a outros temas, como economia, cinema e moda.

A ideia da Casa é dar uma complementação da formação depois que a questão da empregabilidade está resolvida, ele explica.

“Quanto maior o sucesso profissional, maior é a sede de saber. Não de um saber técnico, mas um universal”, afirma Santos.

Melhorar a capacidade de reflexão “além da técnica” também é um dos propósitos da Cultura em Curso, diz o diretor Hamilton Corrêa, 49.

Uma das vantagens das aulas, ele afirma, é que com um empenho de poucos dias os alunos têm acesso a um especialista ao qual dificilmente chegariam. “Talvez até fosse possível pelo livro, mas é difícil saber qual é o livro.”

Tania Casado, professora da Faculdade de Administração e Economia da USP, concorda que o mercado exige dos profissionais conhecimento além do técnico.

Mas ela diz que nem todas as corporações valorizam esse tipo de saber. “Há as que não estão nem aí para isso e as que entendem que ter um alto funcionário ilustrado pode ser a diferença entre conseguir um contrato ou não.

“A professora de educação da Unicamp Ângela Fátima Soliga diz que esses cursos têm a perspectiva de enriquecimento cultural. “Podem ser interessantes, apresentar propostas e temas que despertam o interesse e o desejo das pessoas, assim como um museu ou o teatro”, diz. Ao mesmo tempo, ela alerta que se trata “de um filão, um mercado”. “Dá para ganhar dinheiro com isso e é preciso saber que nem todos os cursos são bons.”

BIZARRICES

Temas inusitados são uma especialidade de algumas das instituições que surgiram nos últimos anos no mercado.

A Ossobuco, de Brasília, promove, mensalmente, quatro palestras de, no máximo, dez minutos cada. Os assuntos incluem o “bermudismo” (o ato de usar bermudas) no ambiente de trabalho ou como dividir as horas de sono para dormir menos durante um dia. Um dos criadores, Pedro Thompson, 28, conta que o critério para escolher uma palestra (que é gratuita para os espectadores) é que o tema seja “interessante”.

Ele diz que as apresentações têm lotado um auditório com capacidade para 200 pessoas todos os meses.

A Perestroika, que tem sedes em São Paulo, no Rio e em Porto Alegre, também busca oferecer aulas de temas pouco ortodoxos. Um desses cursos, por exemplo, chama-se “Bitch!” (em inglês significa cadela, mas é uma gíria tanto para prostitutas como no sentido de mulher chata).

 

É um curso de “empoderamento e pós-feminismo”, que tem módulos como “o poder da mulher” e “antimocinha”. A aluna Nina Godinho, 29, que tem uma camisaria, conta que o curso serviu para estabelecer contatos profissionais (havia blogueiras de moda entre as participantes, por exemplo). Godinho diz também que as aulas a ajudaram a “saber se impor” e valorizar o que faz.

Recentemente, duas sócias da consultoria Oficina de Estilo abriram a Escola de Qualidade Vida para Mulheres em São Paulo justamente com esse propósito.

Uma delas, Cristina Zanetti, diz que descobriu que o ramo delas, na verdade, não era ajudar mulheres a escolher roupas, mas, sim, a melhorar a autoestima. Por isso, ela considera as aulas que oferecem são um desdobramento da consultoria de imagem.

A ideia é “entregar ferramentas”, como ensinar finanças, a fazer uma mala ou a organizar o tempo. Mas só para mulheres, como o nome diz. Isso porque, segundo Zanetti, “elas são mais complexas: são responsáveis pela administração da casa, têm que se depilar, fazer o supermercado”, lista.

Um dos sócios da Perestroika, Tiago Mattos, 33, conta que a escola dá aulas “para a vida”, como as do “Bitch!”, mas há outras mais práticas.

FESTA ESTRANHA

Mattos diz que o que diferencia a escola é a tentativa de ensinar os alunos por meio de experiências. Por exemplo, em um curso sobre mídias sociais, a intenção é fazer com que o estudante entenda que esses sites são “como uma balada”, pois há muita interação e muita gente falando. Para isso, sem avisar, os professores transformam a sala em uma festa, com música e bebidas.

O especialista em marketing Fernando Rangel, 24, é um dos alunos de “new ways of thinking” (novas maneiras de pensar) da Perestroika.

Ele conta que fez duas graduações (em marketing e em eventos), além de uma pós.

Agora, diz, prefere fazer cursos curtos, que ele escolhe à medida que sente necessidade profissional.

A economista Cynara Barbosa Costa Nonato, 31, tomou decisão parecida. “Não tenho mais idade ou paciência para entrar em uma faculdade”, afirma. Determinada a trabalhar com moda, optou por estudar na Escola São Paulo. Ela faz um curso técnico de um ano e meio.

Os programas da escola pretendem ser mais formativos do que um curso livre, diz a fundadora Isabella Prata.

A instituição, criada em 2006, é voltada a área da economia criativa. “Temos três perfis de alunos: os que pretendem ser especialistas em alguma área e os que querem ser gestores ou empreendedores nesses setores”, ela afirma.

Prata também diz que a escola busca, mesmo em cursos curtos, fazer com que o aluno pratique bastante.

Também é assim em uma outra iniciativa, o Mesa & Cadeira, que existe desde 2011. O que a empresa chama de “mesa” é algo similar a um workshop.

Trata-se de um projeto, liderado por alguém considerado especialista no assunto, para de produzir, em cinco dias, um protótipo de algum produto. Pode ser um cartaz, um site ou algo que não exista, explica a sócia Bárbara Soalheiro, 32. Ela seleciona os participantes de maneira a formar equipes com pessoas de diferentes formações, para que as habilidades sejam complementares.

“Entregar o resultado coletivo no final une as pessoas”, diz Tereza Battinardi, 29, designer gráfica da editora Cosac Naify, que participou de quatro “mesas”. Ela diz que os cursos geraram mudanças em seu processo criativo.

“Se tenho que fazer uma capa de livro, preciso tirar a essência daquilo e me lembro, por exemplo, de algo que falamos sobre cartazes, onde devemos dizer o máximo fazendo o mínimo.”

 

Fonte:  FELIPE GUTIERREZ

Folha de São Paulo -07/04/2013

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