Estudantes adiam vestibular para experimentar curso de ‘pré-graduação’

jan 6, 2013 by     No Comments    Posted under: Cursos

“Em vez de ir para a universidade você vai passar o ano dançando? Está maluco?” Foi esse tipo de provocação que Dan Mohamed Salman, de 19 anos, ouviu dos amigos quando decidiu, no fim de 2011, não prestar vestibular. Ele abdicou dos planos de estudar Engenharia por um curso de “pré-graduação”.

Ernesto Rodrigues/AE

Começou 2012 trocando as aulas de física, matemática e química por temas bem mais inusitados, como “Fisionomia da Paisagem” e “Cosmogonia”, em um curso oferecido por um grupo de professores da linha alternativa Waldorf exatamente para proporcionar um “respiro” entre o ensino médio e a universidade. Um espairecer que não custa barato. O preço da anuidade é de R$ 18.500 e não faltam interessados.

 “O jovem precisa de um hiato entre a escola e a vida acadêmica, e esse tempo precisa ser preenchido de modo significativo, de forma que ele se conheça, se fortaleça”, diz Marília Barreto, fundadora e diretora do Projeto Terranova-Pré-graduação.

Tudo começou em 2007, conta Marília, quando ela lecionava em uma escola Waldorf e, ao fim do ano letivo, um grupo de alunos encomendou a ela um projeto que os ajudasse nesse momento de transição. “Eles me disseram que não tinham pressa de entrar na universidade, que os pais não os pressionavam a passar logo no vestibular.”

Nascia dessa demanda o projeto que é fincado na euritmia, uma dança que pesquisa a relação da linguagem com o corpo e é matéria curricular na pedagogia Waldorf por ter um efeito centralizador. Tanto que na grade horária do curso, que funciona em período integral, metade do tempo é direcionado à euritmia, com direito a turnê de um mês de espetáculo pela Europa.

A outra metade do currículo traz a degustação de conteúdos que visam a abrir horizontes, explica Marília. “Em nosso corpo docente, temos médicos, economistas, paisagistas, gente que traz ideias que não aparecem aglutinadas em lugar nenhum. Isso faz com que o jovem, mesmo longe da química e da física, tenha êxito nos vestibulares que presta ao fim do curso.”

No fim do primeiro ano do projeto, dos 20 participantes, 19 conseguiram passaram no vestibular. Só não entrou um estudante que tentava Medicina. Um porcentual que tem se repetido ano a ano.

Não são só vestibulandos que se interessam. Uma das participantes da turma de 2012 deixou a USP para fazer a pré-graduação. Após cursar quatro semestres de Geografia, Isadora Benetazzo estava em dúvida sobre sua escolha profissional. Trancou a matrícula e decidiu repensar a vida.

“Com o processo artístico, fiz uma autodescoberta que me mostrou coisas sobre mim que eu não sabia e confirmei outras que eu já acreditava.” No fim, retomou a Geografia. “Pelo menos por enquanto, é isso o que quero.”

Não foi o que ocorreu com Salman. Depois da pré-graduação, trocou o interesse em Engenharia pela convicção de seguir os passos do pai e se formar médico. Prestou Fuvest, Unesp e Unifesp e está otimista com sua performance na Unesp. “Meu contato com temas do corpo humano me fez voltar os olhos para a área de biológicas. E fui muito bem na prova. Acho que conseguirei minha vaga.”

Sua irmã gêmea, Diana, também fez o curso e tomou a mesma decisão: quer ser médica. O pai, que desembolsou mais de R$ 30 mil, viu que o investimento compensou, pelo menos na decisão profissional dos filhos.

Repertório
Até este ano, convencer os pais a investir em um projeto como esse não era tarefa tão difícil. O público-alvo do programa eram os estudantes de escolas Waldorf, que tradicionalmente já têm um currículo alternativo, sem ênfase nos vestibulares convencionais.

Logo, as famílias estão mais abertas a experiências como a pré-graduação.

O desafio do projeto começa na formação da turma de 2013, com o início da divulgação em escolas que não adotam o mesmo modelo pedagógico, mas que também dão ênfase às disciplinas da área de humanidades. Nas visitas a alguns desses colégios, a equipe do pré-graduação encontrou diretores e coordenadores que gostaram do projeto.

O problema é que o caminho entre a simpatia pela iniciativa e o estímulo para que o aluno opte por esse hiato implica em botar à prova a credibilidade desses colégios. “Essas escolas são consideras boas exatamente porque colocam muita gente dentro das universidades”, explica Marília.

Boa parte é aprovada sem ter certeza do que quer. Uma pesquisa do Portal Educacional mostrou que, no período de inscrições para o vestibular, 54% dos estudantes do 3.º ano do ensino médio ainda não sabiam qual carreira seguir. O estudo também mostrou que em apenas 10% das escolas existe um trabalho específico de orientação vocacional.

“Aos 17 anos, o jovem ainda não tem experiência que lhe dê subsídios para um escolha mais consciente. O que ajudaria, de fato, era se as escolas oferecessem um conteúdo que o ajudasse a pensar o que é ser adulto, que o testasse em situações diversas”, afirma Vanda Maria Junqueira Neves, educadora da PUC.

As inscrições para pré-graduação estão abertas até metade de janeiro.

Fonte: OCIMARA BALMANT – O Estado de S.Paulo

06/01/2013

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