Com 87% de alunos negros, a Faculdade Zumbi dos Palmares ganha novos cursos

nov 20, 2012 by     No Comments    Posted under: Cases

 

Um dissabor costuma acompanhar o paulista José Vicente, de 56 anos, nas visitas que faz a teatros e restaurantes da cidade. “Estou acostumado a me darem a chave do carro para eu estacionar me perguntarem quem eu vim buscar”, conta. Ele não é manobrista nem motorista mas reitor de uma instituição de ensino superior influente, pala qual já circularam visitantes como Hillary Clinton, secretária de Estado americana, que esteve lá em 2010para um debate com alunos e professores. Em atividade há oito anos com a missão de ampliar as oportunidades aos negros, a faculdade Zumbi dos Palmares, mais conhecida como Unipalmares, contabiliza 1600 alunos matriculados e 1400 formados. A proposta da entidade vai além da imposição do sistema de cotas (a partir da lei sancionada em agosto, as universidades federais precisam reservar até 39% das vagas a negros, pardos e indígenas vindos de escolas públicas). A Unipalmares, que é privada e pertence ao Instituto Afro-Brasileiro de Ensino Superior, destina 50% de seus assentos para essas raças, mas nem seria necessário: 87% dos estudantes declaram ter esse perfil. Na USP, por exemplo, são apenas 15%, ante 37% da população paulistana.

 

Atualmente, a Unipalmares oferece cinco cursos, entre eles direito e pedagogia, com mensalidade de 300 reais em média. Agora, ela se prepara para uma nova fase de expansão. No primeiro semestre do ano que vem, haverá gestão de recursos e gestão financeira. A partir de 2014, terá duas modalidades de engenharia: a de transporte e de petróleo e gás. O ritmo de crescimento é forte, tendo em conta que, no início de suas atividades, em 2004, havia apenas 200 alunos no bairro Armênia. Em razão da alta demanda, a Unipalmares rodou pela Luz e pela Barra Funda, até chegar à Ponte Pequena, na Zona Norte, onde ocupa um imóvel dentro do clube de Regatas Tietê. A grade curricular inclui temas ligados às bandeiras da instituição, como defesa das minorias e história da África. Todas as salas estampam o nome de negros famosos, a exemplo da apresentadora Oprah Winfrey, do ativista Malcolm X e do humorista Mussum. Sem falar, é claro de Barack Obama. O presidente reeleito dos Estados Unidos ganhou um retrato gigante na fachada da faculdade e protagoniza uma exposição de fotos no espaço de convivência – seu slogan “Sim, nós podemos!” estampa uma parede em letras garrafais.

 

Nesta semana, será realizada a décima edição do evento de maior visibilidade da Unipalmares. Na segunda (19), a Sala São Paulo recebe o Troféu Raça Negra, que homenageia personalidades com trajetória inspiradora que ajudaram na causa negra – nomes como o ministro Joaquim Barbosa, o ator Lázaro Ramos e o cantor Milton Nascimento já estiveram entre elas. A apresentadora Glória Maris e o cantor Toni Garrido confirmaram já presença, assim como a ativista americana Bernice King, que falará em um discurso da luta do pais, o pastor Martin Luther King, assassinado em 1968.

 

 

A história pessoal do reitor é também exemplar. Ex-boia-fria de Marília, José Vicente chegou a São Paulo para atuar como policial militar. Com o salário, pagou os cursos de direito e sociologia e concluiu, na Universidade Metodista de Piracicaba, mestrado em administração e doutorado em educação.

 

“Sempre quis contribuir para a inclusão, a qualificação e a valorização dos jovens negros”, diz.

 

Juntou-se a outros colegas e, em 1997, criou a ONG Afrobras, da qual hoje é o presidente, que serviu como embrião da Unipalmares.

 

Muito do seu êxito se deve a parcerias com grandes empresas, como Itaú e HSBC. Além de financiarem parte das bolsa, que beneficiam 20% dos alunos, elas abrem programas para estagiários e trainees. Cerca de 260 alunos estão  empregados por esses patrocinadores. O potiguar Ednillson Nascimento, de 37 anos, ganhava cerca de 1000 reais antes de entrar na faculdade, na primeira turma de administração. Em 2006m quando estava no penúltimo ano, ingressou no Citibank e seguiu trabalhando lá depois de formado. Hoje, ocupa no banco o cargo de analista pleno de risco operacional. Saiu do vermelho e fatura o suficiente para manter um apartamento em Santo André e dois carros, enquanto prepara uma boa estrutura para a filha que está por vir. Pretende, no futuro, ser professor da própria faculdade (40% do corpo docente é formado por negro).

 

“Antes, eu só gostava de ser chamado de moreno”, conta, “Na Zumbi, aprendi a assumir a minha raça”.

 

Fonte: Carolina Giovanelli – Veja São Paulo

21 de novembro 2012

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