As novas conexões entre escolas e alunos

fev 25, 2012 by     No Comments    Posted under: Gestão Educacional

O reitor da Darden School of Business, escola de negócios da Universidade de Virgínia, Robert Bruner, fala sobre o futuro das escolas de negócios e o desafio de ensinar alunos cada vez mais tecnológicos.

 

 

Olhando Robert Bruner em seu terno escuro, poucos imaginariam que por trás desse homem aparentemente tradicional está um inquieto blogueiro e autor de mais de 1.500 postagens no Twitter. Aos 62 anos, o reitor da Darden School of Business, da Universidade de Virginia, está empenhado em explorar novas possibilidades de ensino e de conexão com alunos e escolas pelo mundo.

Formado em Yale, com MBA em Harvard, Bruner se tornou um dos professores mais respeitados na área de finanças, responsável por mais de 400 estudos de casos usados por alunos de diversas universidades. Ele assumiu o comando de Darden há seis anos e, nesse período, provocou mudanças significativas. As inscrições subiram e o fundo da instituição cresceu, chegando a US$ 150 milhões em 2011. A escola também reconquistou um espaço de destaque nos principais rankings internacionais. Foi eleita, inclusive, a número um no quesito satisfação dos estudantes, segundo levantamento da revista “BusinessWeek”.

Mas Bruner também colheu louros sobre sua performance no ano passado. Ele foi eleito o reitor do ano pela “Poets & Quants” e desbancou colegas de peso como os reitores de Harvard e Stanford. Sua postura ativa na luta pela globalização do ensino de administração ajudou nessa escolha. Atualmente, ele comanda o que chama de uma “força tarefa” em prol da internacionalização das escolas de negócios na renomada agência de acreditação de instituições de ensino The Association to Advance Collegiate Schools of Business (AACSB).

 

Em entrevista ao Valor, o reitor fala, entre outros temas, sobre o futuro das escolas de negócios e o desafio de ensinar alunos cada vez mais tecnológicos. A seguir, os principais trechos:

 

 

Valor: Como as escolas de negócios podem se tornar globais?

Robert Bruner: Este é um tópico que fala diretamente ao meu coração, pois participo de uma força tarefa especial de reitores interessados na globalização no ensino da administração. Existe uma tremenda diversidade no campo das instituições, cerca de 13 mil delas oferecem alguma graduação em negócios de vários tipos. Nós só sabemos algo substancial sobre apenas 10% dessas escolas. Não existe, portanto, uma fórmula que sirva para todas elas. O primeiro passo é entender que a globalização afeta não apenas países grandes, mas o mundo todo. Estava dando aulas na França e os estudantes me perguntaram porque eu estava apresentando apenas casos sobre outros países. Eu disse que se você acredita que seus competidores e fornecedores estão apenas em regiões próximas, então falar só da França faria sentido. Mas a realidade é que, atualmente, seus consumidores, fornecedores e competidores são influenciados por eventos que acontecem além de suas fronteiras. Desse modo, é vital para as escolas tornarem seus alunos mais confiantes e competentes globalmente.

 

 

Valor: Ter professores internacionais é tão importante quanto atrair estudantes de outros países?

Bruner: Sim, é muito importante. Em Darden, temos 70 professores no total e, dos 21 que eu contratei, metade veio de fora dos EUA. Além disso, um terço dos nossos estudantes é estrangeiro. Acreditamos que eles aumentam a diversidade e a percepção de diferentes culturas e economias. Essa é uma poderosa maneira para incrementar a globalização nas escolas de negócio.

 

 

Valor: Levar os estudantes para desenvolverem projetos em outros países é hoje uma estratégia das grandes escolas para conquistar novos mercados como o Brasil. Ela está funcionando?

Bruner: Essa prática é muito popular entre as escolas de negócios hoje e um dos elementos fundamentais para a globalização das escolas. O que conta, porém, não é o número de parcerias que você tem, mas o valor delas. Conheci uma escola com mais de 200 parceiros pelo mundo e outra com 130. Em Darden, temos apenas 15. A globalização da escola é mais influenciada por poucas, mas profundas parceiras, do que por muitas superficiais. Não imagino como alguém possa dedicar tempo e atenção de qualidade a 200 parceiros.

 

 

Valor: O senhor acha que é mais difícil para escolas americanas se tornarem globais?

Bruner: Como temos uma economia muito grande, os homens de negócios acreditam que a maior parte dos seus consumidores são americanos e, portanto, não precisam pensar em desenvolver acordos fora dos EUA. Mas isso está mudando rapidamente e representa um desafio para as escolas de administração. Os negócios estão globais e não é mais possível escapar do impacto disso.

 

 

Valor: O senhor é um renomado professor que parece gostar muito do ofício. Como o senhor seleciona um bom mestre?

Bruner: Excelente pergunta. Nós olhamos o mundo todo atrás deles. Um bom professor reúne várias competências. Primeiro, ele é curioso. É um erro pensar que seria alguém focado apenas em ensinar e que não se interessa por pesquisa. As duas coisas caminham juntas. Procuramos pessoas que sejam intelectualmente vivas. Segundo, que sejam voltadas para os estudantes e não ao próprio papel. Esses entram na classe e dizem o que querem do começo ao fim. Já aquele voltado para os alunos entra na classe e começa do ponto onde os estudantes estão. Outro atributo é que ele entenda que a missão das escolas é servir à profissão de administrador de negócios. Os melhores professores estão focados nessa missão maior, que não é só em preencher os estudantes com novas ideias, mas prepará-los para se tornarem líderes.

 

 

Valor: Como os novos aparatos tecnológicos estão mudando a relação entre professores e alunos?

Bruner: Acho que eles têm um impacto profundo. A tecnologia está conectando os professores e os estudantes em aspectos novos e inesperados como networking social e a comunicação digital. Os alunos compartilham ideias por mensagens de texto, celulares e e-mails. Existe muito mais atividade do que antes e o compartilhamento de informações é algo que temos de construir a partir disso. A tecnologia digital dá às pessoas acesso a soluções e ideias. Elas podem olhar na internet e conferir o que de fato aconteceu, ou acessar estudos de casos que outros já resolveram. Acredito que vamos mover a rota do aprendizado na direção da internet e o que sobra para as salas de aula é um maior nível de engajamento entres os estudantes e os professores em uma coisa que só pode acontecer pessoalmente. Eu estava falando com um CEO de uma grande corporação e ele disse que as escolas de negócios vão se tornar dinossauros por conta da internet. Eu disse, “aposto que você já fez coisas na sua vida e na sua carreira que só foram possíveis pessoalmente”. Negociar um contrato com um sindicato, fechar uma venda importante, dar um feedback duro para um empregado ou pedir alguém em casamento, por exemplo, são coisas que só são possíveis de se fazer pessoalmente. Isso porque o sucesso vai depender da habilidade de engajar o outro lado de uma forma mais sensível e profunda. O que faremos nas escolas de negócios no futuro será construir o caminho para que os alunos aprendam on-line sobre ferramentas e conceitos que vamos construir. Será um caminho mais rico do que antes, usando o aprendizado face a face, simulações, estudos de casos e experiências de campo.

 

 

Valor: O senhor desenvolveu centenas de estudos de casos e publicou muitos deles. Esse ainda é o melhor caminho de aprendizado?

Bruner: Gosto de ensinar com estudos de casos por uma razão simples: aprende-se melhor com eles. Eles o colocam no meio de uma situação problemática, confusa, que contém incertezas, ambiguidades e informações desnecessárias que podem induzir na escolha do caminho errado. Dessa maneira, você é forçado a tomar decisões e não a simplesmente encontrar soluções. Isso é feito em colaboração com outros estudantes e esse processo ensina mais do que qualquer palestra ou outro exercício. É uma lição que vai ficar na sua cabeça por muitos anos.

 

 

Valor: Como o senhor vê a mudança nos currículos promovidas recentemente por grandes escolas como Harvard e Stanford?

Bruner: Acho que isso é saudável. Essas mudanças são fruto de processos de inovação que estão acontecendo nas escolas de negócios e, automaticamente, são boas para os estudantes e para os profissionais de administração. Em Darden, temos feito vários projetos experimentais para mudar nosso currículo e acredito que grandes mudanças resultam de várias outras pequenas. Steve Jobs, por exemplo, lançou o iPhone, o iPod e o iPad. Ele, na verdade, agregou pequenas invenções. As grandes mudanças que vamos ver serão a agregação de pequenos experimentos que estão sendo testados hoje.

 

 

Valor: Qual a importância do mercado brasileiro na sua escola?

Bruner: O Brasil é muito importante e queremos atrair mais alunos do país. Os que temos atualmente são realmente bons e agregam valor em nossas classes. Ele aprenderam rapidamente que o networking global vai ser fundamental para suas carreiras por muito tempo.

Fonte: Stela Campos – Valor Econômico

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