Mercado: IES privadas devem se concentrar

set 25, 2011 by     No Comments    Posted under: Destaque, Gestão Educacional

Megacompras como a da Uniban pela Anhanguera devem se  intensificar. Para especialistas em educação, nível das instituições pode  melhorar

 

O movimento no segmento de ensino  superior privado do Brasil deve se manter nos próximos anos, acreditam  analistas, a tal ponto que, em 2016, segundo a consultoria Hoper Educacional,  apenas 12 grupos deverão abocanhar metade do mercado hoje estimado em 28 bilhões  de reais ao ano – atualmente, 16 empresas respondem por 30%. Mais importante é  que, segundo especialistas em educação, a tendência pode provocar o  aprimoramento dessas instituições. Em outras palavras, a qualidade do ensino que  elas oferecem pode melhorar.

 

Compras vultosas não são uma novidade no segmento. Desde 2007, quando  importantes grupos abriram capital na bolsa de valores, aquisições vêm se  somando: foram 162 operações. Nesse período, a Anhanguera multiplicou por quatro  seu número de estudantes, chegando a mais de 400.000. A tendência para o futuro  próximo é de concentração, apostam os analistas. “A Anhanguera já manifestou  interesse em atingir a marca de 1 milhão de estudantes. Esse é um dos sinais de  que o mercado deve continuar aquecido”, diz Marcos Boscolo, sócio da consultoria  KPMG. A Hoper estima que mais de 150 fusões ou aquisições deverão ocorrer até  2013. “A tendência é que haja negociações entre os grandes grupos”, afirma Ryon  Braga, da Hoper. “Antes, as empresas de pequeno e médio portes eram alvo dos  grandes grupos. Agora, as grandes miram as grandes.”

 

O Brasil conta atualmente com 2.069 instituições de ensino superior privado,  que abrigam 74% do alunato do país. O ponto de mudança nesse setor foi o ano de  1996, quando foi sancionada a lei que permitia a abertura de universidades com  fins lucrativos. Até então, elas se restringiam à filantropia, como é o caso  Pontifícia Universidade Católica (PUC). Seguiu-se, então, a criação dos grandes  grupos, como as Faculdades Pitágoras, do grupo Kroton, quinto maior do país.  Essas instituições passaram a atender uma demanda até então reprimida por cursos  de nível superior, já que nem de longe as universidades públicas cuidavam dessa  necessidade. O setor privado respondeu: entre 2002 e 2009, ele ampliou sua  oferta de vagas em 55%, ante um crescimento público de 17%.

 

 

Dez anos depois de sancionada a lei que permitiu o  crescimento do setor privado no ensino superior, as empresas da educação se  aventuraram em uma nova seara: a bolsa de valores. Em 2007, quatro delas  realizaram sua IPO, sigla em inglês para oferta inicial pública de ações,  captando cerca de 450 milhões de reais. O ingresso na bolsa foi o marco da  aceleração das operações de compra e venda.

 

“Com o lançamento das ações, grupos  como a Anhanguera conseguiram financiar a expansão e a multiplicação do  alunato”, diz Marcos Boscolo, da KPMG.

 

 

No ano seguinte à captação, a Anhanguera realizou 30 compras. Desde dezembro  de 2010, foram mais nove.

 

“O mercado está amplamente favorável àqueles que  tiverem dispostos a investir. No próximo ano devemos voltar ao mercado”, diz  Antônio Costa, vice-presidente do grupo.

 

Outro fator favorece o aquecimento do setor: o interesse estrangeiro no  mercado brasileiro. “Qualquer grupo internacional que deseja crescer olha para o  Brasil”, diz Braga, da Hoper. Alguns motivos explicam tal interesse. O Brasil  ainda registra uma taxa muito baixa de estudantes no ensino superior. Ou seja,  ainda existe uma parcela grande de brasileiros sedenta por chegar à  universidade. Do outro lado, a classe média não para de crescer – ela já  representa 50% da população. Com mais dinheiro no bolso, o sonho do ensino  superior entrou de vez na cesta de consumo.

 

Maior grupo de educação do planeta, o americano Apollo já ofereceu, em 2008,  2,5 bilhões de reais pela Universidade Paulista (Unip), do empresário João  Carlos Di Genio. A oferta foi recusada. Mas os especialistas apostam que os  americanos aportam em breve por aqui. Em 2005, outro grupo dos Estados Unidos, o  Laureate, assumiu o controle da Universidade Anhembi-Morumbi.

 

 

Os meganegócios também podem ser bons para os estudantes  e, portanto, para a educação brasileira. Segundo especialistas da área, a  expansão dos grupos pode dar a escala necessária ao aprimoramento, reduzindo  custos e possibilitando investimentos.

“Se a empresa possui muitas  unidades, o gasto de operação passa a ser reduzido”, explica Jacques  Schwartzman, economista, especialista em educação e diretor do Centro de Estudos  Sobre Educação Superior e Políticas Públicas da Universidade Federal de Minas  Gerais (UFMG).

 

Na prática, isso significa comprar equipamentos e materiais pela  metade do preço; o custo de elaboração de material didático, parte onerosa do  negócio, também cai drasticamente. Aí está a chance de melhorar infraestrutura e  investir na capacitação dos professores. “Pode haver, inclusive, reducação no  preço das mensalidades”, diz Schwartzman. De fato. Desde 1996, o valor médio das  mensalidades das instituições privadas despencou 44%, passando de 900 reais para  os atuais 500 reais.

 

Helena Sampaio, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de  Campinas (Unicamp) e especialista em ensino superior privado, concorda que a  concentração pode ser benéfica à educação.

“Trabalhar em escala permite aos  gestores promover melhorias. Isso não garante, no entanto, que essas melhorias  sejam implementadas. A fiscalização pelo governo nesse setor ainda se faz  necessária.”

 

Atualmente, o Ministério da Educação dispõe de um sistema de conceitos para  avaliar as faculdades, universidades e centros universitários. A partir do Exame  Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) e de visitas aos campi, o MEC  atribui notas às instituições, que vão de 1 a 5, sendo que os conceitos 1 e 2  são considerados insuficientes. Não raro, unidades  de instituições privadas como a própria Anhanguera obtêm avaliações ruins. É  hora, portanto, de aproveitar o bom momento dos negócios para aprimorar o  ensino.

 

 

Fonte: Veja

Nathalia Goulart

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