Monografias prontas a preço de ocasião

set 18, 2011 by     2 Comments    Posted under: Destaque, Notícias

Ex-datilógrafo sem formação superior ganha a vida produzindo monografias para universitários

 

A agilidade com as teclas, ele ganhou como datilógrafo de uma gráfica da Praça Mauá. O inglês e outras línguas foram aprendidos “na beira do cais”. A cultura, forjou batendo à máquina textos alheios e, posteriormente, queimando pestana diante do Google, do Yahoo e de outras ferramentas de pesquisa. E foi assim, sem nunca ter pisado na sala de aula de uma faculdade, que Ricardo Bastos, de 66 anos, se estabeleceu no mercado de monografias por encomenda. Com o seu conhecimento enciclopédico e rapidez no teclado, ele produz cerca de 20 “trabalhos acadêmicos” por mês. Mas não se considera um ghost writer da clientela estudantil. Prefere ser chamado de “segundo orientador”.

 


Quem já passou nas imediações de alguma universidade de Niterói, cidade onde Ricardo montou o seu negócio, provavelmente recebeu um panfleto oferecendo “monografias nas normas”, com digitação, pesquisa, redação, revisão e traduções, conforme a vontade do freguês. Ao contrário da grande maioria da concorrência, que divulga os serviços on-line protegida pela virtualidade da internet, ele fornece endereço, telefone e até e-mail aos interessados. Não se incomoda em assumir o que faz para ganhar a vida.

– No Grande Rio, eu sou o único a trabalhar assim. A maioria dos meus clientes não tem tempo para fazer uma monografia. Um estudante de enfermagem, por exemplo, chega ao fim do curso trabalhando em três lugares diferentes. Além disso, odeia computador e tem dificuldade com as normas técnicas – explicou.

 

O Censo da Educação Superior, divulgado no início do ano, mostrou que houve um crescimento de 13% no número dos cursos de graduação em 2009, em relação a 2008. Ao mostrar a cara, Ricardo Bastos materializa um fenômeno que cresce ao sabor da multiplicação das universidades e do descompromisso dos estudantes com as obrigações acadêmicas: o comércio paralelo de monografias prontas.
Odontologia, Pedagogia, Históra, Engenharia Naval. Nenhum campo do conhecimento é estranho para Ricardo. Ele garante que deve parte de seu saber enciclopédico ao ginasial cursando no Colégio Brasil, no bairro do Fonseca (Niterói), onde orgulha-se de ter sido colega do cantor Cauby Peixoto e do ex-deputado Sigmaringa Seixas. Sua formação foi completada na escola da vida, da leitura dos textos que era obrigado a datilografar, como funcionário de uma gráfica, ao convívio com marinheiros e outros tipos da Praça Mauá dos anos 1970.

– Eu não fazia um trabalho mecânico. Procurava entender o que estava datilografando. Tinha curiosidade.

 

Foi desta época o primeiro contato com monografias e teses acadêmicas. Sem contar com os atuais recursos gráficos, mestrandos e doutorandos eram obrigados a imprimir em firmas especializadas as cópias exigidas.

 

-Eu datilografava os originais da socióloga Carmen Dora Guimarães, famosa por um estudo sobre a vida noturna no Rio. Recebia manuscritos, fichários, trechos de livros e era obrigado a organizar tudo dentro das normas.

 

Com o inglês aprendido no colégio e aperfeiçoado no cais, Ricardo passou a fazer a tradução de manuais técnicos no boom dos videocassetes. Daí para o mundo acadêmico, foi um pulo. Ele se deu conta de que tinha tudo nas mãos para fazer sucesso, da facilidade com as teclas (não mais das máquinas de escrever, mas dos computadores) à familiaridade com a linguagem padrão da academia.

 

Após a morte do pai, Ricardo começou a trabalhar por conta própria, em meados dos anos 1990, na casa deixada de herança pelo avô, no Centro de Niterói. Transformou a sala em escritório e pregou tabuleta na porta. Não demorou para os primeiros estudantes aparecerem .

 

Hoje, garante que virou referência no mercado. Porém, afirma que o lucro do trabalho mal dá para pagar as despesas – dois rapazes o ajudam nas tarefas diárias, um no computador e o outro espalhando panfletos. A casa está castigada pelo tempo. Um pequeno balcão separa Ricardo da clientela. Uma barafunda de papéis e livros cerca os dois computadores disponíveis.

Além de ganhar pouco,levo muito calote – diz, sem revelar o preço do trabalho.

 

Embora reconheça, que é veciado em internet, “procurando tudo no computador”, Ricardo garante que conta com uma biblioteca pessoal, amealhada nos anos de serviços prestados aos estudantes, muitos dos quais donos de livros deixados para trás depois da entrega da monografia. Mas a única estante do escritório exibe poucos títulos.

>
A bibliografia que funciona, de fato, por ali são os manuais de elaboração de trabalhos acadêmicos de Universo, Estácio de Sá, Uerf, Universidade Plínio Leite, PUC-Rio, Unisul, PUC-Paraná e Faculdade São Leopoldo Mandic, que Ricardo mantém o tempo todo ao seu alcance.

Mas ele afirma que jamais fez um trabalho no lugar do aluno, limitando-se apenas a instruí-los ou organizar os textos, muitos deles manuscritos, dentro dos padrões da Associção Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

– A maioria quer o trabalho pronto. Mas respondo que meu sistema é outro.

 

O reitor da UFF, professor Roberto Salles, considera impossível se fazer uma tese acadêmica sem copiar algo que já esteja pronto. A posição de Salles, diante desta possibilidade é implacável:

– Isso é fraude. Se acontecer aqui , o aluno é reprovado e ainda abrimos sindicância.

 

A UFF já vítima de uma fraude do gênero. Um dos professores do Departamento de História, Humberto Machado, processou judicianlmente e pediu cassação do título de um mestrando da Universidade de Brasília (UnB) que copiou integralmente a sua tese sobre José do Patrocínio em 2005.

– Ganhei na Justiça, mas lamento que até hoje a UnB não tenha cassado o título do responsável – disse Humberto.

 

Fonte: Jornal O Globo – 17/09/2011
Chico Otávio

 

2 Comments + Add Comment

  • As pessoas tem de trabalhar! Ao menos é um sujeito que se aperfeiçoa intelectualmente e labuta a fim de obter seu sustento. Quem merece escárnio são os que o contratam e não honram o pagamento. Espero que ele passe a cobrar adiantado por seu serviço!
    Além de tudo, Ricardo Bastos é corajoso em se expor! Boa sorte, Ricardo!!!

  • Li essa reportagem no Globo, achei muito legal o trabalho dele, até por que ele não vende monografias prontas. Quanto ao calote, concordo o que escreveu a Daniella.
    Desejo sucesso ao Ricardo.

Got anything to say? Go ahead and leave a comment!

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Newsletter

E-mail:

Inscrever
Desinscrever

Publicidade