Mestrado é o novo bacharelado

ago 12, 2011 by     No Comments    Posted under: Destaque, Notícias

Titulação passou a ser critério de corte de candidatos em seleções de emprego nos Estados Unidos

 

A história de William Klein pode parecer familiar para seus colegas de graduação.
Depois de conquistar o diploma de bacharel em história pelo College at Brockport, em Nova York, ele continuou morando na casa dos pais em Buffalo e trabalhando no mesmo emprego de garçom que tinha no colegial, ganhando US$ 7,25 por hora.

 

Não é que não houvesse outros empregos. É que todos pareciam exigir mais estudos. “Ficou claro que, com o meu diploma, não há muitas colocações que interessem.”

 

Por isso, ele vai aumentar suas chances no mercado fazendo o programa de mestrado da Universidade Rutgers em estudos judaicos. Klein não tem muita certeza de aonde o diploma o levará. Mas sabe que precisa de mestrado.

Verifique as listagens de empregos e você só verá “diploma superior necessário, mestrado de preferência”.

 

Chame isso de inflação de títulos. O mestrado hoje é a graduação que mais cresce.

O número de títulos concedidos, cerca de 657 mil em 2009, mais que duplicou desde os anos 1980 nos EUA, e a alta foi mais intensa nos últimos anos, diz Debra Stewart, presidente do Conselho de Escolas de Graduação.

 

Quase duas em cada 25 pessoas com 25 anos ou mais têm mestrado -mais ou menos a mesma proporção das que tinham diploma de bacharel ou superior em 1960.

 

FORA DO GENÉRICO

O interesse ocorreu em parte porque os cursos são novos, específicos e utilitários. Não são mestrado genérico. Até o MBA, observou um reitor de escola de administração, “é um pouco vago demais no ambiente atual”.

Hoje existe mestrado em bioarqueologia esquelética e dental e mestrado em aprendizado e pensamento. O título do momento é o mestrado em ciência profissional, PSM na sigla em inglês, que combina treinamento específico para empregos com técnicas empresariais.

“Existe a tendência a pensar em diplomas profissionalizantes”, diz Carol Lynch, diretora de programas de mestrado profissional no Conselho de Escolas de Graduação.

Os empregos foram “aperfeiçoados”, como diz Debra Stewart? Ou talvez a corrida por títulos seja um sinal do mercado -a ideia do economista A. Michael Spence, ganhador do Prêmio Nobel, de que diplomas são menos valiosos pelo que você aprende do que por anunciar a tenacidade em obtê-los.

 

CORRIDA PELO DIPLOMA

“Existe uma desvalorização do diploma universitário”, diz Eric Hanushek, economista da educação no Instituto Hoover da Califórnia.

“Estamos nos aprofundando no volume de formandos no colegial que vão para faculdades”, o que faz o diploma de bacharel não ser mais medida de avaliação adequada para empregadores.

As faculdades estão produzindo mais graduados do que o mercado de trabalho pode receber, e um mestrado é essencial para que candidatos a emprego se destaquem -isso ou o diploma de uma faculdade de elite, diz Richard Vedder, professor na Universidade de Ohio.

“Os beneficiários são faculdades e empregadores”, diz Vedder. As empresas conseguem empregados com mais educação, e as universidades preenchem lugares.

Para Vedder, a proliferação de mestrados é evidência de uma “diplomação enlouquecida”.

“Daqui a 20 anos, você vai precisar de doutorado para ser zelador”, afirma.

Os diplomas abordam um problema de mão de obra, diz David King, reitor de estudos de graduação e pesquisa na Universidade Estadual de Nova York em Oswego e diretor do Programa de Mestrado em Ciência Profissional.

“Existem milhões de vagas de emprego no país, mas elas não estão alinhadas à qualificação exigida”.

Cada diploma de PSM, segundo King, é desenvolvido com assessores das companhias onde os estudantes poderão trabalhar. “Estamos levando o currículo para o mercado, em vez de esperar que o mercado venha a nós”, diz.

 

CRITÉRIO DE SELEÇÃO

É por isso que John McGloon, que lidera a equipe de redação técnica na empresa de equipamento médico Welch Allyn, ajudou a criar o mestrado em interação humano-computador na Oswego.

Enquanto os empregos na Welch Allyn podem não exigir mestrado, o título tem sido usado como mecanismo de filtragem de candidatos. Depois de anunciar uma vaga de redator técnico, McGloon recebeu “dezenas e dezenas” de currículos.

Os recrutadores não sabiam por onde começar. “Eu disse: Metade tem mestrado. É a nossa primeira seleção.”

Laura Georgianna, encarregada de desenvolvimento de funcionários na empresa, confirma que, diante de dois currículos quase iguais, o que tem mestrado prevalece.

Um diploma de mestrado “não garante que alguém terá muito mais sucesso”, ela explica. “Ele indica que a pessoa é dedicada ao trabalho. Isso lhe dá maior garantia de que é algo em que ela pensou e que realmente quer.”

No que pode ser um sinal do futuro, o departamento de alemão da Universidade do Colorado em Boulder está propondo um doutorado destinado a profissionais.

Os alunos desenvolveriam compreensão cultural útil em empresas. O curso seria limitado a quatro anos, segundo John A. Stevenson, reitor da escola de graduação, e incluiria estágios no exterior.

Stevenson vê nisso um modelo que outros departamentos poderão copiar. Mas isso levanta a pergunta: o doutorado se tornará o novo mestrado?

 

DO “NEW YORK TIMES”

Tradução LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES

Folha de São Paulo

31/07/11

 

 

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