Especialista fala sobre tablets em escolas

jul 26, 2011 by     No Comments    Posted under: Destaque, Entrevistas, Notícias

 O uso de tablets no lugar de livros didáticos pode até piorar o aprendizado dos alunos caso os professores não mudem a maneira como trabalham os conteúdos. Essa é a opinião do professor da Escola de Educação e da Escola de Engenharia da Universidade Stanford (EUA), Paulo Blikstein, 39, que desenvolve projetos com foco em tecnologia de ponta para uso em escolas.

 Em entrevista à Folha, ele defende a exclusão de conteúdos curriculares, especialmente nas áreas de matemática e ciências, e diz ser positivo o fim da obrigatoriedade do ensino da letra cursiva nos EUA.

Formado em engenharia pela Escola Politécnica da USP, mestre pelo MIT Media Lab e doutor pela Northwestern University (Chicago), Blikstein estará no Brasil nos dia 17 e 18 de agosto, quando participa da Sala Mundo Curitiba 2011 –encontro internacional de educação que reúne educadores do mundo todo.

 Folha – Você conhece experiências com o uso de tablets em sala de aula?

 Paulo Blikstein – Aqui em Stanford teve um projeto com o apoio da Apple onde eles queriam substituir livros didáticos na faculdade por iPads. Foi feita uma pesquisa com professores e a conclusão geral é que a tecnologia ainda não está à altura do que se precisa numa escola. O tablet é muito pequeno, é muito difícil de fazer anotações, de visualizar várias coisas ao mesmo tempo. Por enquanto, o livro didático, pelo menos para nível superior –onde muitas vezes você trabalha com várias fontes ao mesmo tempo, precisa fazer anotações e cruzar informações de várias fontes– você precisaria de um equipamento muito mais avançado para isso poder realmente substituir o livro didático.

E em níveis mais básicos de ensino?

Em todos os programas que eu conheço, todo mundo sempre subestima a questão logística e a questão do custo de propriedade. Por exemplo, uma empresa que tem 1.000 funcionários e 1.000 computadores tem um departamento inteiro para cuidar daquilo. As pessoas acham que você vai dar 1.000 computadores para as crianças, e não tem ninguém para tomar conta disso, para consertar, atualizar, dar orientação. A questão logística é importante.

As pessoas acham que o problema da educação é falta de acesso a tecnologia, e não é. O problema é que querem usar os tablets exatamente do jeito que se usa um livro didático. Querem que as crianças sentem nas cadeiras e, em vez de o professor chegar lá e falar “abram seus livros”, é “abram seus tablets”. Usar um tablet, que é um material que custa caro, que é difícil de dar manutenção, que quebra, que tem uma série de problemas, do mesmo jeito que você vai usar um livro é um desperdício enorme de dinheiro. O que você precisaria é pensar quais são as novas formas de aprendizado que os tablets, os computadores permitem.

Algumas empresas dizem que haverá gráficos, tabelas dinâmicas e toda uma interatividade com o conteúdo e que isso seria diferente do livro didático. Mesmo nesse caso, você não vê uma mudança significativa?

Já tem muita interatividade em materiais online que já existem e nem por isso eles melhoraram significativamente o aprendizado. Você pode olhar uma animação num computador e entender aquele fenômeno de uma forma errada. A gente tem a ideia de que o visual é melhor do que o textual. Mas isso não é necessariamente verdade. Tem muitas pesquisas mostrando que às vezes o visual confunde mais do que o textual. Agora, tem coisas que são boas. Você pode demonstrar vários conceitos em ciência, física ou química melhor quando se tem essa ferramenta.

O que muda para o professor com o uso dos tablets?

A aula tradicional fica cada vez mais difícil de ser dada com esse tipo de tecnologia. Para o professor, os tablets vão trazer uma grande mudança de mentalidade porque você precisa dar aula de um outro jeito. Se não, vai ser como em várias escolas brasileiras, em que a aula na sala de informática às vezes é mais repressora do que na sala de aula, porque os professores ficam preocupados porque as crianças podem quebrar [o computador] ou começar a jogar um jogo.

Como deveria ser uma aula nesse novo formato?

Eu conheço, por exemplo, um projeto na Tailândia que um colega meu coordenou. O jeito que ele usou essas tecnologias lá foi: primeiro criar projetos relevantes para as crianças. Projetos ambientais ou urbanos. Ele levava as crianças, por exemplo, para um estudo do meio onde você tinha um problema ambiental, ou uma espécie que estava sendo extinta, ou uma espécie invasora que estava chegando, ou um problema de qualidade da água. As crianças usavam os computadores para documentar o lugar, tirar fotos onde tinha o problema. Usavam sensores para medir as coisas e tentar entender cientificamente o que estava acontecendo. Depois levava tudo isso para a sala de aula e discutia com os alunos as hipóteses. Esse é um tipo de protótipo de projeto que acho superinteressante de fazer com tablets. –

 

 

Você acha que o uso dos tabletes pode melhorar o aprendizado dos alunos?

 Isso é mais ou menos como se eu perguntasse assim: “será que o uso de canetas na sala de aula pode melhorar o aprendizado?”. Sem dúvida que pode, mas eu posso também usar as canetas de um jeito tão ruim que não faça nenhuma diferença. Agora, colocar o tablet numa aula tradicional, sem nenhuma adaptação do jeito que se ensina, sem nenhuma adaptação do material didático –que seja um pouco melhor do que simplesmente colocar umas animações dentro de um livro didático– é um desperdício. Não vale a pena. A questão fundamental é desenvolver atividades em sala de aula e conteúdos que efetivamente usem as novas qualidades desse material. Isso é o que vai fazer os tablets valerem a pena. A questão é que essa é a parte difícil de fazer e é a parte que sempre não é feita.

 

 

Como você vê o Brasil em relação ao uso de tecnologias na educação?

 Tem uma tradição no Brasil que vem desde o Paulo Freire de ouvir o aluno. Isso é uma coisa importante que em outros países simplesmente não existe. Eu tenho vários alunos de pós-graduação que vêm da Coreia, por exemplo, ou de outros países da Ásia, onde a preocupação com o aluno é muito diferente.

A questão [nesses países] não é se o aluno está feliz aprendendo, se ele está gostando do que aprende, se está se interessando; é muito mais um regime de alta pressão para resultados, mas resultados que muitas vezes são vazios. O Brasil tem essa grande vantagem, que eu acho que a gente realmente se importa com o aluno, com o interesse do aluno, muito mais do que em outros países.

 O problema é que muitas vezes você não tem as ferramentas e o treinamento para fazer isso acontecer na sala de aula. Em relação a tecnologia, a minha percepção é que o foco ainda é muito no hardware, no equipamento, e muito pouco em treinar os professores para usar isso de uma forma interessante na sala de aula.

 Fonte: @Folha_com

25/07/11

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