Cambridge por dentro

jul 7, 2011 by     No Comments    Posted under: Destaque, Notícias

Exame quase não reprova, mas aluno precisa expor pensamento original em entrevistas

 

A primeira impressão do visitante em Cambridge é a de ter voltado no tempo. Professores e alunos em togas pretas caminham por prédios medievais e fazem refeições em enormes mesas coletivas. Por baixo das curiosidades, entretanto, está uma bem-sucedida universidade moderna, que nos leva a questionar  nossas ideias sobre o ensino superior.

 

Começo pelo mais chocante. Uma graduação leva três anos; o mestrado, normalmente um só. Por semestre o aluno cursa quatro matérias, a maioria eletivas. As aulas acontecem em anfiteatros, sem lista de presença, e a maioria das provas não conta para a nota final; quase não há reprovação.

O pressuposto é o de que o aluno selecionado já sabe fazer boas provas: a tarefa da universidade é ensiná-lo a pensar o conhecimento adquirido.

 

 

Nos períodos de aula, o trabalho é intenso: o estudante apresenta, quinzenalmente, um texto sobre um tema de cada curso. Tem então uma hora de discussão/avaliação individual, com um professor ou pós-graduando. Para discutir Hobbes, precisa sentar e ler Hobbes. Deve entender seu pensamento, situá-lo historicamente e apontar incoerências, e não reproduzir palavras de um professor. Em vez do acúmulo de informações, exige-se a capacidade de encontrá-las, entendê-las e transformá-las em algo relevante para os demais.

 

 

A mentalidade se estende ainda mais fortemente aos pós-graduandos. O controle do tempo é do aluno; confia-se nele para saber, por exemplo, se precisa de mais uma semana ou um mês para terminar um relatório. Às vezes, para obter mais prazo ou financiamento, basta uma troca de e-mails com seu orientador.

O controle, é claro, existe. Mas é feito sobre os resultados. Um aluno ou professor que repetidamente descumpre obrigações, ou não atinge certo padrão de qualidade, recebe num primeiro momento atenção, e num segundo, alertas sobre seu desempenho. Na pós, professores que continuamente escolhem trabalhos estéreis terão menos verbas e podem ser questionados pela universidade.

Fazer funcionar esse sistema requer que a universidade ofereça meios. Desde o primeiro ano da graduação, cada aluno recebe a chave de uma biblioteca, normalmente ao lado do dormitório, com computadores e livros essenciais, usada dia e noite. Pós-graduandos e professores têm acesso 24 horas às grandes bibliotecas específicas e estudantes de Exatas e Biológicas, aos laboratórios. Todos esses equipamentos custam caro e precisam ser atualizados a cada poucos anos.

 

 

O financiamento do sistema é a questão do momento na Inglaterra. Desde 1998, alunos pagam parte do custo da universidade pública – se desejarem, após a entrada no mercado de trabalho. Em 2012, o preço atual deve triplicar. Mas não será metade do que cobram as universidades americanas mais prestigiosas, com as quais as inglesas querem competir.

A mudança tem sido vigorosamente combatida nas ruas, com o argumento de que um estudante não deve começar sua vida profissional em dívida. O governo responde que o principal beneficiário do ensino superior é o próprio aluno, e não há por que a sociedade arcar com os custos dessa fase da educação.

Esse debate tem relevância no Brasil? Nosso modelo é o europeu continental: a sociedade financia o ensino superior, e considera-se que a formação universitária é um valor em si. Mas, na Europa, a massificação desse modelo de ensino, sem aporte de novos recursos, gerou efeitos perversos. Cada vez mais comuns, os diplomas significam cada vez menos.

 

 

Embora estejamos bem atrás de outros países sul-americanos em porcentagem de jovens na universidade, em 2011 mais de metade dos adolescentes completará o ensino médio na idade correta (em 1992, era um em cada seis). A expansão do ensino superior, público e privado, tem sido feita por atalhos e fundos especiais. O salto qualitativo exigirá que repensemos as bases do sistema: como fazer, em termos de meios e formato de cursos, para que em nossas universidades jovens talentosos se tornem grandes pensadores – e como vamos dividir essa conta.

 

 

* GERALDO VIDIGAL NETO É DOUTORANDO EM DIREITO INTERNACIONAL EM CAMBRIDGE E BOLSISTA DO SIDNEY SUSSEX COLLEGE. ADVOGADO FORMADO PELA USP, FEZ MESTRADO NA SORBONNE (FRANÇA)

 

 

Fonte: Geraldo Vidigal Neto,

Especial para o Estado – Estadão.edu

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